História de São Sebastião


A LENDA

..........Soldado estava nu. Roupas e pertences espalhavam-se pelo chão: um manto purpúreo, um elmo, sandálias, um saiote, insígnias de prata e uma faca de punho de osso. Amarram-lhe os braços atrás da cabeça, junto ao tronco de uma árvore. Afastaram-se. Eram nove arqueiros escuros e altos, com arcos que os superavam em altura. As aljavas às suas costas levaram setas de afiadas pontas de ferro.

..........Colocaram-se em posição. Esticaram os arcos. A primeira seta zuniu no ar e foi enterrar-se no corpo do soldado. Outras vieram, certeiras. Mas Sebastião não emitia uma única palavra. Mantinha os olhos fechados. E, a cada estocada, tremiam-lhe de leve as pálpebras.

..........Então houve um silêncio. Entre dor e dor, o soldado apurou os ouvidos à espera do zunido cortante. Abriu os olhos. Viu os arqueiros a distância, os arcos distendidos, atentos, espiando-o com curiosidade. Eles também esperavam. Um gemido de dor. Qualquer sinal de medo. Mas Sebastião apenas sorriu.

..........Desconcertados, os nove arqueiros baixaram seus arcos. Murmuraram entre si palavras de temor, guardaram as setas e partiram, deixando-o preso à arvore.

..........Depois que eles se afastaram, uma mulher dirigiu-se ao soldado. Era Irene, a viuva do mártir Cástulo. Sebastião, crivado de setas, pareceu-lhe um grande porco espinho. E perguntou a si mesma se não era por isso que ele se chamava Sebastião, que quer dizer “rodeado”. Ele vivera rodeado de mártires a quem reconfortava, e agora estava de setas. O soldado Sebastião era inteiro uma coroa de espinhos.

..........Irene o levou para casa, com ajuda dos filhos. Colocou emplastros de ervas sobre suas feridas. Deu-lhe de comer e beber.

.........- Tu és autêntico e corajoso – sussurrava-lhe ao ouvido enquanto ele dormia.

..........Dias depois, quando entrava em casa carregando uma pesada moringa com água, Irene viu a cama vazia. Compreendeu imediatamente. Era 20 de janeiro, dia da festa de consagração da divindade do imperador. Havia musicas nas ruas, bandeiras tremulavam entre os cortejos das legiões. Toda a cidade estava reunida no templo de Hércules.

..........Quando Sebastião apareceu diante do povo no altar do templo, o imperador ficou lívido, como se tivesse visto um fantasma.

.........- O Senhor restituiu-me a vida para que eu pudesse vir acusá-lo dos sofrimentos que infliges aos cristãos – falou Sebastião, para que todos ouvissem.

..........Os guardas passado o temor supersticioso, logo caíram sobre ele, cobrindo-o de golpes de bastão. O imperador ordenou então que o corpo fosse jogado num riacho fétido que cortava a cidade. Assim foi feito.

..........Porém naquela noite, um perfume doce e fresco, de lírios e jasmins, espalhou uma estranha felicidade pelos casebres miseráveis erguidos ao longo dos esgotos de Roma.


A VIDA

..........Segundo os antigos martirológios, são Sebastião nasceu por volta do ano 250 em Narbona, cidade do Império Romano que naquele tempo pertencia à província da Gália (hoje sul da França). Logo depois sua família mudou-se para Milão, onde seu pai faleceu.

..........Foi criado pela mãe, que praticava a fé cristã, apesar das constantes perseguições da época.

..........Ao atingir a maioridade, Sebastião tornou-se soldado. Foi a Roma, onde se destacou entre as tropas, tornando-se chefe da primeira corte da legião de infantaria. Era admirado e querido pelos co-imperadores Diocleciano e Maximiano.

..........Mas, sob a couraça e as insígnias de soldado, vivia uma identidade secreta – a de cristão amoroso, segundo os princípios de sua fé. Usava o traje militar com a única intenção de fortalecer o coração dos cristãos, amedrontados com as perseguições.

..........Secretamente, costumava visitar os cárceres, onde havia muitos condenados ao martírio, para falar com eles e confortá-los. Numa dessas ocasiões, foi ouvido por Zoé, mulher do carcereiro Nicostrato, que era muda. Ela se aproximou dele e, através de gestos, pediu-lhe perdão pelo maus-tratos que eram dispensados aos prisioneiros. Sebastião, fechando ao olhar, respondeu-lhe numa invocação:

..........- Se esta mulher acredita em tudo o que ouviu de mim, que seus lábios e sua língua
sejam livres.

..........Ao ouvi-lo, Zoé começou a falar:

.........- Vi um anjo segurando diante de ti um livro onde estava escrito tudo o que falavas.
Porém, as perseguições estavam se tornando cada vez mais ferozes e sangrentas.

..........Algum tempo depois, Zoé foi presa enquanto rezava no túmulo dos apóstolos Pedro e Paulo. Foi queimada, e suas cinzas, jogadas no rio Tibre. Sebastião foi descoberto e denunciado.

..........O soldado apresentou-se a Diocleciano, diante de quem corajosamente confirmou as acusações. O imperador convocou os arqueiros da Mauritânia, os melhores do império, ordenando-lhes que amarrassem o traidor a uma árvore e o crivassem de flechas, sem atingir seus órgãos vitais, para que morresse lentamente.

..........Assim foi feito, mas Sebastião sobreviveu ao suplício. Deixando como morto, foi resgatado e tratado pela viúva de um mártir, Irene. Restabelecido, quis encontrar-se mais uma vez com Diocleciano. No dia 20 de janeiro, festa consagrada à divindade do imperador, Sebastião apareceu diante dele, no templo de Hércules, e o acusou de crueldade brutal contra os cristãos. Enfurecido, Diocleciano ordenou que fosse morto ali mesmo. Os soldados o cobriram de golpes de bastão e jogaram seu corpo na cloaca máxima, o principal esgoto da cidade. Sebastião tinha 38 anos. Os cristãos o resgataram, sepultando-o na catacumba que ganhou seu nome.


DEVOÇÃO

..........O culto a São Sebastião começou logo depois de seu martírio. Já em 376, uma basílica em sua honra foi construída em Roma. A devoção popularizou-se durante a idade media por todo o Ocidente e Oriente. São Sebastião era o santo mais invocado durante as pestes que assolavam a Europa nesse período. Essa associação veio provavelmente da antiga crença de que as epidemias eram o resultado de flechas disparadas por uma divindade.

..........Intercessões milagrosas atribuídas as santo foram registrados em Roma, em 680, em Milão, no ano de 1975, e em Lisboa, em 1599. Lisboa, por sinal, guardava a relíquia de um braço do santo no convento de São Vicente e também tinha uma das setas do martírio, presenteada el-rei dom Sebastião pelo papa Gregório XIII.

..........As representações mais antigas do santo são do século V e o mostram como um jovem barbado, com toga ou armadura. A partir do século XIII e durante o Renascimento, tornou-se popular a imagem que conhecemos hoje: um jovem nu e belo, amarrado a uma arvore ou a uma coluna, atravessado por flechas. Essa se tornou sua imagem clássica, no suplício a que sobreviveu.


PADROEIRO

..........São Sebastião protege contra a fome, as guerras, as doenças contagiosas e as epidemias. É padroeiro dos atletas, presidiários e soldados, assim como a cidade do Rio de Janeiro e do distrito de Tapiranga.


FLECHAS

..........São Sebastião tornou-se o protetor contra as doenças contagiosas durante a idade media. Esta associação veio provavelmente da antiga crença de que as epidemias eram causadas por flechas disparadas por uma divindade.


SUPLÍCIO

..........A representação clássica de São Sebastião é o suplicio da flechas, a que ele sobreviveu. O santo foi morto com golpes de bastão pelos soldados do Imperador Romano.

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